sexta-feira, 16 de março de 2012

Documentários interativos: entrevista com Nina Simões

Texto publicado em: Jornalismo Digital

Publicado em 16 de março de 2011
Por Andre Deak

Nina Simões faz documentários interativos. Webdocumentários. Docufragmentários. O nome não importa, mas ela é uma das poucas pessoas que está pesquisando e produzindo sobre o tema. No dia 23 de março (quarta-feira), ela apresenta via Skype a oficina “Documentários Interativos na Era da Convergência”, no Paço das Artes, na USP (mais informações e inscrições aqui). O evento é parte do ciclo de conferências, desconferências e oficinas que a Cidade do Conhecimento organiza em parceria com o Consório PRO-IDEAL (União Européia) e o Núcleo de Política e Gestão de Tecnologia e Inovação (PGT) entre os dias 22 e 26 de março, na USP.

Ela também estará em Bristol, no i-Docs, dia 25 de março. O i-Docs é um laboratório/simpósio para o avanço do desenvolvimento dos projetos de documentários interativos. Lá ela irá apresentar o paper Transmedia Storytelling: Immersive and Participatory Stories. Fizemos uma conversa via Skype, e Nina respondeu também algumas questões por email sobre o tema da oficina.

Pra começar, seria bacana você contar um pouco da tua história, desses anos todos fora do Brasil e um pouco dos projetos futuros.
Enquanto estudei comunicação social, em São Paulo, trabalhava como publicitária e também fazia parte de um grupo onde discutíamos a necessidade da democratização dos meios de comunicação no Brasil. A grande maioria de nossas reuniões aconteciam na Barra Funda. Estou falando do final dos anos 80 e de toda aquela onda vermelha que levou muitas pessoas a debaterem propostas transformadoras. Aprendi muito durante aquela época, mas na verdade foi através de meu amigo João Kruger, e muitas cervejas, que descobri a campanha política do Geraldo Siqueira, do PT. O pessoal do comitê estava à procura de alguém que coordenasse a campanha – e então saí de uma empresa que vendia anúncios para trabalhar na venda de um candidato. Rapidamente deu pra sentir a diferença. A campanhado Gê sempre foi regada a muitas discussões políticas, atividades culturais e muita festa. Naquele ano de 1989, o Lula e o Gê perderam a eleição. Todo mundo ficou muito triste, e eu aproveitei o cansaço pós-campanha e resolvi viajar por um tempo.

Cheguei em Londres em 1990 e no início as coisas não foram fáceis. Eu mal falava inglês e não tinha um passaporte europeu, portanto a minha condição era de estrangeira, sem direito a trabalho legal. As coisas começaram a mudar depois de algum tempo, quando comecei a frequentar reuniões e debates organizados pela Brazil Network, uma instituição social dedicada ao debate das questões sociais e políticas do Brasil. Obter o meu passaporte português (minha mãe é portuguesa) também foi decisivo na minha permanência em Londres, pois em vez de procurar trabalhos como babysitter ou cleaner eu passei a estudar produção de vídeos no Goldsmith College e cheguei até a Undercurrents Video Magazine, uma news agency dedicada a produzir vídeos sobre questões sociais, culturais e políticas.

Depois da Undercurrents, trabalhei também em produções para o Channel 4 e BBC, onde tive a oportunidade de passar vários meses viajando pela Amazônia e pesquisando o envolvimento da Inglaterra na compra ilegal de mogno na Amazônia. Em paralelo a estas produções, trabalhei também para a Brazil Network, como editora e coordenadora de eventos. Entre as várias pessoas que participaram de nossas conferências e reuniões, duas foram especialmente marcantes: Hilda de Souza Martinz, do MST e o jornalista Lúcio Flavio Pinto.

Viajei com Hilda pela Inglaterra e Escócia para apresentar um video que editei sobre o massace de Eldorado dos Carajás e durante nossa viagem ouvi muitas histórias sobre o movimento. Depois disso rolou o doutorado e um novo quadro se abriu… Falo sobre isso depois. No momento, estou prestes a lançar um projeto transmídia que também envolverá o Brasil. Aliás, transmídia é o tema que estarei debatendo durante o symposium i-docs, que acontecerá aqui na cidade de Bristol no dia 25 de Março.

Conta um pouco do processo de contrução do Rehearsing Reality? De onde veio a ideia? Como foi realizado?
Na Inglaterra é possivel você realizar um doutorado prático, ou seja, parte da tese a ser apresentada pode ser em formato audiovisual e o www.rehearsingreality.org foi parte desta experiência. A idéia aconteceu durante uma noite quando fui assistir uma palestra de Augusto Boal no Soho Theatre aqui em Londres. Naquela noite, Boal falou sobre as experiências do Teatro do Oprimido pelo mundo e também revelou sua mais nova parceria: O Movimento Sem Terra. A idéia deste projeto era tornar a linguagem do Teatro Forum acessível a vários integrantes do movimento para que eles pudessem utilizá-la como ferramenta pedagógica nas salas de aula e em comunidades do MST.

Eu fiquei particularmente interessada, porque, até então, em todas as minhas visitas a acampamentos e assentamentos do MST, ainda não tinha observado nenhuma atividade cultural além da Mística. Depois da palestra, me apresentei ao Boal e disse que gostaria muito de filmar a experiência teatral com o MST. Isto foi no início de 2001 e até que esta idéia se tornasse uma tese de doutorado, incluindo um documentário interativo, levou algum tempo. Em 2002 ganhei uma bolsa de estudos da Universidade de Artes de Londres e durante 2 anos viajei por várias partes do Brasil filmando várias experiências teatrais. Durante aquelas viagens, tive a oportunidade de conhecer e entrevistar muita gente interessante, incluindo o Professor Noam Chomsky, que em 2003 estava presente no Forum Social Mundial em Porto Alegre.

Quando retornei a Londres tinha muitas horas de filmagem, mas ainda não tinha ideia de como realizar um documentário interativo. Naquela época ainda não existiam as ferramentas e plataformas que existem hoje. Foi aí que descobri o Korsakow System, um software livre que qualquer pessoa pode baixar e trabalhar. Viajei para Amsterdam para uma oficina sobre documentários interativos e durante uma semana com outros 20 cineastas fizemos vários testes com Korsakow. Durante aquela semana, o cineasta Mano Camon ficou interessado em meu trabalho e depois disso o convidei para trabalharmos juntos na edição de Rehearsing Reality.

A edição não foi fácil, pois de alguma forma eu queria realizar um trabalho visual que representasse a linguagem interativa do Teatro Fórum, e o Korsakow e toda a tecnologia da época ainda eram bem fechadas. Trabalhamos muito e especialmente no desenho da barra de navegação. Fiquei feliz com o resultado, concluí o doutorado e desde então estou sendo convidada a apresentar Rehearsing Reality em vários festivais nacionais e internacionais, e em universidades aqui na Inglaterra. A próxima apresentação acontece no dia 29 de Março na Universidade de Bristol.

Existem níveis diferentes de interação, desde o processo de participação na construção do roteiro, até na distribuição, no financiamento. Como você entende essas participações? Como seria um documentário completamente interativo?
Sim, existem níveis diferentes de interação e esta palavra sempre gera muita confusão na mente das pessoas. Interação e participação são coisas diferentes. Tudo depende de como você quer realizar o teu projeto e do quanto você está aberta para que outras pessoas participem dele. Hoje temos várias ferramentas, plataformas e o remix à nossa disposição, portanto o que precisamos são boas histórias. Com uma boa história, pode-se também ativar uma audiência interessada no tema do teu documentário e estas mesmas pessoas podem eventualmente colaborar de diversas formas em teu projeto.

O que é um documentário interativo?
A palavra interatividade está relacionada a novas tecnologias e ferramentas que são desenhadas para gerar participação dos usuários. Portanto, em poucas palavras eu definiria o documentário interativo como um convite ao usuário a participar ativamente de um processo de co-criação.

Quais são os maiores exemplos que você conhece hoje de experiências de docs interativos online?
Eu gosto muito de Out of my Window, Prison Valley e Pine Point e estou curiosa para ver o resultado de 18DaysInEgypt. Vale a pena lembrar que Out of My Window de Katerina Cizek é um documentário interativo que integra o projeto Highrise, um projeto de 4 anos que só está começando, portanto temos aí uma grande chance de participar de uma escola aberta.

Por que fazer um documentário interativo?
Olha, eu acho que com tantas ferramentas e plataformas de distribuição acessíveis, a pergunta deveria ser: “por que não fazer um documentário interativo?”.

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