terça-feira, 24 de abril de 2012

Estava estampada a realidade, ocupava as bancas a Realidade.

Considerada um marco na história da imprensa brasileira, a revista Realidade mostrava através de seus textos impecáveis outro Brasil e mundo, a realidade, enfim, aparecia frente aos olhos dos brasileiros.


Por Maria Esther Castedo Valdiviezo

Lançada pela Editora Abril em 1966, percorreu um caminho de história até 1976, levando jornalistas desde a Amazônia até o Vietnã. Criada por jovens interessados em um novo tipo de reportagem, capaz de atingir os mais variados públicos, a revista logo se tornou um sucesso. Para a década de 60, a imprensa ainda tinha como pilares essenciais um destaque maior para as fotografias do que para o texto. Surgindo daí, o referencial que levaria a revista Realidade para um novo patamar, diferentemente de tudo que já se havia lido ou visto.

O lema era um total aprofundamento do repórter no tema, levando-o a passar até um mês no mesmo lugar, observando a história. Trabalho tão árduo chegou a refletir o episódio em que José Hamilton Ribeiro, enviado especial ao Vietnã, perde a perna na explosão de uma mina terrestre. O enfoque profundo das matérias era para que o leitor tivesse uma verdadeira visão daquilo que estava redigido. Podemos dizer, então, que a revista levava seu nome totalmente a sério.

Segundo o professor de História da Imprensa da Unesp, Lasnok, “a grande virtude da Realidade era a liberdade de texto e uso da fotografia para apresentar ao leitor perspectivas não usuais naquele momento, distante da TV, distante da chamada grande imprensa.” Ou seja, os temas eram enfocados com uma lupa, capazes de darem outras visões. Mas ser um diferencial em tais tempos custava caro, como exemplo da edição de janeiro de 1967, que tinha a mulher como foco principal, contendo temas delicados como aborto, mãe solteira e separação.

O preço pago foi uma decisão judicial de apreensão da revista em todo território nacional, sendo acusada de obscena. Chegando os anos da ditadura, surgiu a preocupação do AI-5 frear as atividades jornalísticas da revista, entretanto, José Carlos Marão que trabalhou na Realidade, comenta que a equipe já estava dispersa por uma briga quatro ou cinco dias antes da formulação do ato institucional. Ademais, não havia um censor direto na revista Realidade como nas outras revistas da época, mas sim uma espécie de auto censura, na qual os jornalistas já escolhiam matérias que não fossem contra os poderes, comentou José Carlos.

 Após os anos áureos da revista, que constam ser da primeira fase de 66 a 68, há uma decaída na qualidade, sendo que vários de seus integrantes partiram para outros campos. Segundo José Carlos, “Há uma análise pelo Carlos Alberto Lins da Silva, doutor de jornalismo da USP, que diz que em um determinado momento juntaram-se uma empresa disposta a investir, um mercado de leitor disposto a ler e uma equipe talentosa disposta a inovar.”. Características que concretizaram o surgimento do new journalism no Brasil, apesar dos repórteres nunca tivessem dispostos a escrever de tal maneira, foi um trabalho inconsciente.

A revista realidade de fato trouxe nova cara para o jornalismo brasileiro, sendo capaz de influenciar as mídias da época e tratar assuntos controversos de outros ângulos. O leitor buscava o que Clarice Lispector escreveu, “Eu não quero uma realidade inventada”, mas sim, uma realidade real.

-- Confira na íntegra a entrevista com José Carlos Marão, integrante de revista Realidade

Porque você acha que a revista atingiu tão bem?

Por causa do conteúdo, basicamente. O mercado brasileiro tinha revistas semanais ilustradas muito superficiais. Realidade foi excepcional também na fotografia, mas principalmente no texto. O mercado era muito pobre de publicações, sendo ela inovadora, encontrou um mercado receptivo onde não havia quase concorrência.

As revistas O Cruzeiro e Diretrizes abriram espaço para as essa reportagem profunda. Em que a realidade se diferenciava delas? 

Vou discordar. Trabalhei também no Cruzeiro, e era totalmente diferente. Realidade era voltada para texto, Cruzeiro para as fotos. Quem abriu o caminho foi a Realidade, inovando por causa do texto.

De que modo a revista realidade influenciou os periódicos atuais?

Influenciou jornais e revistas da época, não podemos comparar com as atuais, pois houve uma revolução tecnológica a exemplo da televisão. No tempo da realidade, a TV era inexpressiva, irrelevante, o jornalismo se inovou, vindo novas mídias como a internet, e isso fez o jornalismo ir por um caminho diferente, adaptado ao mercado e a essa tecnologias. Influenciou no texto da época, 70 ou 75, depois não, pois o jornalismo encontrou novo jornalismo. O Globo Rural tem algumas reportagens como semelhança a Realidade, mas não diria que há uma influência geral.

No seu texto a Realidade fazia uma reportagem mais profunda. Hoje em dia há um enfoque muito superficial, parecem correr contra o tempo. Você concorda que o jornalista se tornou um escravo do tempo e da empresa por trás da revista? 

A ditação do tempo sempre existiu como o exemplo do jornal diário, assim como antes e agora. O desafio, claro, imposto pelo tempo hoje é maior. Vamos comparar com o rádio, você tinha que correr para dar a noticia na rádio, mas de qualquer forma o leitor iria ver a noite a reportagem na TV e ainda assim não dispensava o jornal de amanhã. Hoje com tantos profissionais e tantos meios de comunicação a notícia vai para a internet mais rápido que o rádio, em seguida já há uma equipe que analisa isso para Tv, e o jornal do dia seguinte já esta superado. Esse é o tema principal do jornalismo hoje, o uso correto de vários meios de comunicação, deveria ser discutido no meio acadêmico das universidades. A revista hoje tem mais tempo de qualquer forma, por exemplo, Istoé ou Época, os jornalistas têm tempo de ler o que saiu no jornal, na TV, na internet, e surge outro desafio: fazer uma análise mais profunda. A revista tem como definição elaborar um material mais pensado, e com reflexões, o que nem sempre acontece. Queria sabe se o senhor concorda, que o Profissão Repórter, tem um formate semelhante as reportagens da realidade? Não tenha visto o programa, mesmo sendo admirador do Caco Barcellos. Há uma parte de seu livro sobre a revista Realidade, em que fala que as reportagens pegavam uma pessoa para mostrar o coletivo, e isso vejo no Profissão Repórter. Então, sim, temos pontos de semelhanças.

Você acredita que haveria atualmente espaço para revistas como a realidade? 

Há o espaço para leitura, menor como foi antigamente, mas não faria um sucesso de vendas, como realidade estourou. Há pessoas que gostam de ler e há gente que sabe escrever para tais pessoas. Desde que o empreendedor se conformasse com uma publicação não tão grande em termos de circulação, creio que há espaço, não haverá muito grande, somente com a ajuda de grandes anunciantes.

Que consequências diretas da censura, especialmente do AI5, fizeram a revista se transformar? 

Houve uma briga interna antes do AI5, dispersando a equipe. Havia pressões da empresa e a equipe resistia, mas em certo momento o equilíbrio se rompeu, quatro ou cinco dias antes da AI5. Depois, o ato institucional influenciou a revista. Não houve um censor direto na Realidade, mas havia uma espécie de auto censura, já se escolhia matérias que não fosse provocar os poderes da época, isso claro contribuiu para a decadência da revista.

Havia um espírito coletivo de criação, principalmente nas reuniões de pauta. Você acredita que inda existe esse espírito de se reunir?

 Ele pode existir. Depende das pessoas desde que haja um objetivo em comum, gostarem do que fazem e houver unidade de pensamento, é possível sim, talvez haja em alguns lugares. Sempre que pessoas jovens estão de acordo com o que fazer, vão se reunir e discutir os melhores caminhos, sem brigas. Aquela equipe era muito unida, era lindo.

Podemos contar com aquele bordão de que “as pessoas certas estavam na horas certas e nos locais certos”? 

Mais ou menos isso. Há uma analise pelo Carlos Alberto Lins da Silva, doutor de jornalismo da USP, em um determinado momento juntaram-se uma empresa disposta a investir, um mercado de leitor disposto a ler e uma equipe talentosa disposta a inovar. Essa coincidência é difícil acontecer de novo, mas pode acontecer, um dia.

Dizem que o que influenciou a Realidade foi o new journalism, você afirmaria essa ter sido essa a principal?

Todos tinham lido Capote e pessoas do gênero. Mas ninguém se sentia fazendo new journalism. Quando eu sentava não dizia “agora vou fazer new journalism”, não. Sentava e dizia “vou fazer uma matéria que todos entendam e gostem, quero que tanto um doméstica como um PhD em Direito leiam e entendam minha matéria. Não poderia ser tão difícil para a doméstica e nem superficial para o Phd. Pensávamos isso , e acabou resultando que chamaram nosso trabalho de new journalism, talvez fosse uma tendência mundial que inconscientemente íamos seguindo.

Não havia um publico de preferência? 

Não, na época pensamos em ser dirigida a classe media habituada na leitura, homens, mulheres e basicamente jovens. Mas o sucesso foi grande, atingindo todas as faixas, tanto econômicas, etárias culturais e educacionais.

Havia uma maior aproximação entre repórteres e leitores, como estava sendo recebida nas bancas o material, certo? 

Sim, ficávamos vendo quem comprava. Perguntávamos por que ele comprou , “isso é bom?”, “porque comprou?”. As mulheres eram que principalmente compravam. E até homens, o que era espantoso, e isso era interessante.


Veja capas que marcaram a revista Realidade. http://www.flickr.com/photos/50091511@N06/with/4596226318/ 

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