quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Divergência de opiniões sobre a maior greve das universidades de São Paulo

Com início em maio e final em setembro, a greve foi marcada pelo descaso das Reitorias

Por Thainá Zanfolin



Foto: Marcos Bezerra/ Futura Press/Estadão Conteúdo

Iniciada em 21 de maio deste ano e com término em 19 de setembro, a greve de professores e funcionários pela qual as universidades estaduais paulistas passaram foi a maior da história. O principal protesto era contra o reajuste salarial de zero por cento anunciado pelo CRUESP (Conselho de Reitorias das Universidades do Estado de São Paulo), o que acarretaria no congelamento dos salários de servidores técnico-administrativos e docentes das instituições. Além deles, os alunos também entraram em greve em vários câmpus das três universidades – USP, UNESP e Unicamp – pedindo por maior investimento nas universidades, entre outras reivindicações.

Após três meses, no final da greve, docentes e funcionários, apoiados pelos estudantes, conquistaram reajustes de 2,57% nos meses de setembro e dezembro e ainda 28,6% de abono sobre o salário de um mês. Essas negociações foram sob mediação do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) e o resultado foi comemorado pelos grevistas. As reivindicações dos professores e funcionários eram principalmente pelo reajuste salarial, em razão do arrocho acumulado desde o ano passado, quando a reitoria assumiu o compromisso de pagamento de um percentual de 3% mas não cumpriu com o combinado.

Além do reajuste salarial, outros pedidos também estavam em pauta nas negociações, como a melhoria do ensino, a retomada de projetos de extensão, mais transparência no orçamento das universidades, melhorias da infraestrutura e o aumento do financiamento de pesquisas feitas pelas universidades. As reitorias das três universidades justificam o arrocho salarial que foi anunciado alegando que as instituições não têm mais condições orçamentárias para conceder os aumentos exigidos e que os orçamentos já estão completamente comprometidos com a folha de pagamento. No caso da Universidade de São Paulo (USP), por exemplo, o reitor anunciou que 105,5% da verba vai para o salário de docentes e funcionários, enquanto na Universidade Estadual Paulista (UNESP) e na Universidade de Campinas (UNICAMP) essa porcentagem é de 95,2% e 96,8%, respectivamente.


As atividades promovidas pelos professores e funcionários durante a greve foram palestras, debates e atos públicos. A decisão de greve foi tomada em assembleia tanto para os professores, funcionários e estudantes nos locais onde estes aderiram ao movimento. Na UNESP, em vários câmpus houve adesão dos estudantes à greve, apoiando aos professores e reivindicando questões que implicam em sua vivência na universidade. Na UNESP Bauru, os alunos entraram ao movimento no dia 28 de maio pedindo pelo fim do corte de orçamento destinado a projetos de extensão, pelo aumento de vagas de moradia estudantil e pela abertura do restaurante universitário, prometido há quase vinte anos e que ainda não entrou em funcionamento.

Durante a greve estudantil, reuniões, palestras, atos públicos e mobilizações foram as principais atividades promovidas pelo Movimento Estudantil do campus. A assembleia dos estudantes para a decisão de adesão à greve teve a presença de 350 pessoas, porém muitos alunos permaneciam contrários à greve estudantil.

A decisão de adesão à greve dividiu opiniões entre as outras classes também. Roseli Cristina Nonato Pitondo, funcionária do Departamento de Ciências Humanas na UNESP Bauru, era favorável à greve por acreditar ser esse o único instrumento que os funcionários e professores dispõem na luta pelos seus direitos. Para Marcos Guaraldo, funcionário da seção de graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Artes e Comunicação, também da UNESP Bauru, os pedidos feitos por todas as classes são válidos, mas havia outras formas de reivindicação que poderiam ter sido usadas. “No caso da administração, atraso no trâmite de documentações e atividades, priorização de serviços locais e detrimento dos da reitoria, paralisações, entre outras, medidas seriam mais efetivas”, afirma.

Enquanto o professor Juarez Xavier era favorável à greve, o professor de Sociologia na UNESP Bauru, Murilo César Soares era contrário. Este, mesmo de acordo com todas as reivindicações, acreditava que elas poderiam ter sido feitas de outras formas, como paralisações para um período de debate, mobilizações, manifestações e utilizar os recursos da mídia, entre outras coisas. “Eu era contrário porque acredito que na universidade pública Paulista, há representantes docentes e de funcionários em todos os níveis da administração, ou seja, há espaço para uma interlocução produtiva com a reitoria, sem necessidade de greve. Além do mais, a greve deve se o último recurso na relação trabalhista, mas na Unesp se banalizou, de modo que os trabalhadores param antes de tentar outros meios”, afirma.

As principais consequências da greve para os favoráveis foram o aumento da compreensão da instituição e a possibilidade das universidades atenderem as necessidades de formação de bons profissionais e bons cidadãos. Para os contrários, houve também consequências negativas. “Os maiores prejudicados foram os estudantes e suas famílias. Mas é preciso pensar também na própria universidade, que é preciso preservar, porque uma greve de cem dias por ano destrói qualquer instituição que queira ser séria. Hoje o corporativismo estrito constitui uma ameaça ao desenvolvimento da universidade brasileira”, afirma Murilo Soares. Para Guaraldo, funcionário, as principais consequências foram atrasos nas atividades acadêmicas e administrativas e a sobrecarga no retorno ao trabalho.

Para os grevistas, a situação foi tratada de maneira hostil pela reitoria. Segundo alguns funcionários e professores, as discussões só demoraram a ocorrer por conta do descaso dos reitores sobre a situação. Alguns acontecimentos, como remarcação de reuniões, adiamento de discussões e a presidente da CRUESP, Marilza Vieira Cunha Rudge, entrar em férias no meio do período de negociações, foram um exemplo dado para esse descaso.

A greve terminou em setembro após a negociação de professores e funcionários, obtendo-se o reajuste salarial para setembro e dezembro e abono sobre um salário, entre outros ganhos. A greve estudantil terminou antes da greve dos outros setores, em 19 de agosto. A decisão de terminar a greve estudantil foi por conta da baixa adesão dos estudantes, sendo que as reivindicações não foram atendidas. Na imprensa nacional e regional pouco se mostrou sobre a greve das universidades públicas estaduais. Segundo entrevistados, além da pouca cobertura, as matérias sobre o assunto eram parciais e mostravam de maneira negativa os grevistas.

Mapa da greve Unesp (Divulgação)


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