quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Greve da UNESP e USP causa prejuízo econômico em Bauru

Cai o movimento no setor terciário próximo aos estudantes

A Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP) e a Universidade de São Paulo (USP) possuem um dos seus câmpus instalados na cidade de Bauru. As duas universidades são algumas com destaque na área de educação na cidade, que conta também com outros nomes relevantes como a Universidade do Sagrado Coração (USC), o Instituto de Ensino Superior de Bauru (IESB), a Instituição Toledo de Ensino (ITE), a Universidade Paulista (UNIP), a Faculdade Fênix, as Faculdades Integradas de Bauru (FIB), entre outras. Tais universidades compõem um quadro de 20 mil alunos, um número expressivo diante da população local de 362 mil habitantes.

A maioria destes estudantes não é de Bauru e acaba exercendo influência na cidade com a sua presença.  Exemplos disso são, no âmbito acadêmico, os projetos de extensão e pesquisa voltados para aumentar o bem estar social. Já no campo econômico, os estudantes são responsáveis por movimentar o setor terciário frequentando supermercados, bares, lanchonetes, restaurantes e shoppings, além de utilizarem serviços como táxis e salões de beleza, fomentarem o setor imobiliário e eventualmente o hoteleiro com visitantes à cidade em Congressos, Seminários e Encontros acadêmicos.

O professor da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da UNESP (Faac) Juarez Xavier destaca que pelo fato de Bauru ser uma cidade universitária, os estudantes afetam diretamente a vida na cidade: “As universidades, especialmente, as públicas em cidades médias e pequenas acabam tendo grande participação no PIB. Para exemplificar, além de Bauru, temos Campinas, São Carlos entre outras cidades do interior paulista. Logo, tudo o que acontece na universidade implica na cidade”.

Diante deste quadro, a greve das duas universidades públicas paulistas instaladas na cidade, UNESP e USP, ocorrida entre os meses de maio a setembro gerou prejuízos para os setores de serviços mais próximos aos estudantes. Cada universidade com seis mil e mil alunos respectivamente, a cidade deixa em média de arrecadar R$ 8.7500,00 por mês – a greve aproximou-se dos quatro meses – considerando que cada estudante tem uma média de gastos entre R$ 1000 e R$ 1500 com aluguel, alimentação transporte e lazer.Alguns comerciantes ligados a esses setores ressaltam que embora o prejuízo não tenha atingido valores altos particularmente, ele ocorreu e não há como recuperá-lo.

Um dos mais afetados com a ausência dos alunos foi o Restaurante da UNESP administrado pela empresa Nutricom. O gerente administrativo Sr. Adenoni explica: “A greve afeta principalmente os funcionários. O custo fixo de aluguel, por exemplo, não é passível de cortes, então a demissão de funcionários aparece como saída. Nessa greve houve demissão de 50% do nosso quadro de trabalho, mas os ainda disponíveis na época de volta às aulas foram recontratados”. Seu Adenoni completa: “A greve causa prejuízo porque nas férias nós estamos preparados para a ausência de movimento, mas na greve, nem sempre. Temos de manter o restaurante aberto pelo menos durante o período diurno, como exige nosso contrato”. O gerente ainda explica que, apesar de alto, este prejuízo não prejudica extremamente, pois é algo que se deve prevenir com cauções financeiros ao se estabelecer uma empresa.

De acordo com o Secretário de Economia e Finanças de Bauru, Marcos Roberto da Costa, a economia bauruense encontra seu forte na prestação de serviços com proeminência do setor educacional, de cobranças e gráfico, não possuindo forte indústria. Marcos, ao olhar a greve por seu viés econômico, avalia que a perda não se recupera: “O prejuízo às vezes pode ser recuperado no período que seria de férias, mas o calendário acaba sendo modificado e há o encurtamento do semestre, o que implica menos tempo da presença dos estudantes na cidade e, por consequência, os gastos que teriam aqui acabam acontecendo em sua cidade natal. Para completar o quadro, a maior duração desta greve, se comparada a outras anteriores, aliada a um período econômico difícil no país provocou maior impacto”.

Segundo o professor Juarez, a greve foi eficiente como instrumento de ação política: Após o período, houve um aumento de 5,2% dos salários dos docentes e funcionários, além da ampliação de outros benefícios. Evitaram-se cortes de professores, foi reaberto o debate sobre a permanência estudantil através do aumento de vales alimentação e moradias e garantiu-se a inauguração do Restaurante Universitário.

Houve, no entanto, significativos aumentos na alimentação e transporte despendidos pelos alunos. O restaurante responsável por servir o almoço, jantar e salgados aos alunos da Universidade Estadual Paulista reajustou seus preços: o almoço passou de R$ 19 o quilograma da comida para R$ 19,70. O salgado também subiu de R$ 3,30 para R$ 3,50. O valor do transporte público sofreu um reajuste na passagem em R$ 0,20. As corridas de táxi também ficaram mais caras, porque o movimento caiu cerca de 10 a 15% na greve. No entanto, tais aumentos, garantem os responsáveis, foram provocados pela inflação do país, estipulada em 6%.

Ainda assim, alguns dos estudantes que ficaram o período de greve fora, não esperavam o valor desse reajuste. A estudante Camila Nishimoto conta: “Eu não esperava este aumento, mas é bem compreensível, já que os serviços da própria UNESP e os terceirizados (como as cantinas e o restaurante) sofreram bastante com o prejuízo causado pelos quatro meses de quase nenhum movimento na universidade”. Camila garante que o aumento trará impacto na sua vida financeira: “Haverá um gasto maior com o meu almoço, por exemplo, o que vai direcionar um valor a mais de dinheiro que não era necessário antes, um dinheiro que poderia ser gasto em outra coisa ou nem ser gasto”.

O estudante João Pedro Delarco conta que, devido ao aumento de mais de 10% no preço do almoço no restaurante, seu prato está ficando agora quase R$ 1 mais caro do que antes: “Num total, só com o gasto de alimentação, a semana está saindo, em média, de 3 a 4 reais mais cara. Eu esperava o aumento, afinal, foram quase quatro meses de paralisação. Só não acreditava que seria tão grande”. Atualmente, João Pedro satisfaz-se com as comidas congeladas que traz de sua cidade de origem, próxima a Bauru, para reduzir os gastos: “Como moro perto da UNESP, posso voltar e almoçar em casa, me policiando para não gastar muito além do aceitável e possível”.

Já o estudante Matheus Moura vê o reajuste como uma consequência da inflação, mas também como um aproveitamento da greve para subir os preços por ser um momento em que o campus está vazio: “Acho que a data do reajuste ocorreu propositalmente numa época em que havia menos chance de alguém contestar os valores, pois o movimento na universidade estava bem menor. Meu dinheiro é contado, então qualquer ajuste maior em alguma parte do orçamento, principalmente em serviços essenciais como os ligados à faculdade, implicam em gastos maiores, que precisarão ser cortados de alguma outra parte”.

A greve se apresenta como um momento desastroso para a economia e, como explica o professor Juarez, não só para ela: “Perdem os professores, que têm seus projetos atrasados, perde a universidade: a tendência no próximo ranking de instituições de ensino superior é que a UNESP e USP caiam um pouco, o que provoca consequências como a perda de convênios com universidades do exterior. Perde os alunos, que atrasam sua formação e sua produção intelectual, perde a cidade em vigor cultural e inovação provocados pelos alunos. E perde o estado a credibilidade do seu plano educacional”. No entanto, Juarez ainda ressalta que se pode ganhar uma melhora não só da universidade pública, mas da própria infraestrutura da cidade, que, através da pressão dos alunos, pode obter novas políticas sociais, além da presença de graduados e doutores gerados por esses centros de formação acadêmica que servem à cidade profissionalmente.

A greve ocorrida em 2014 foi a mais longa da história das universidades públicas paulistas e exibiu no seu desenrolar as entranhas da universidade e mostrou que há cada vez mais posicionamentos críticos em busca de um ensino de mais acessível e de maior qualidade para todos.

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