sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A vida de quem inventa de voar

Por: Larissa Cavenaghi




São  estudantes  e  vêm,  de  diversas  partes  do Brasil,  arriscar  a  sorte  em  busca  de futuro seguro  e  emprego  garantido.  Saem  do  ninho  para  aprender  a  voar  e  voltam para  lá  tendo  já percorrido vários céus.

Todos os anos, milhares de estudantes deixam o conforto de seus lares em busca de um estudo de qualidade a fim de garantir e consolidar um futuro até então turvo. Receosos, partem para cidades desconhecidas levando, além das malas, um sentimento de ansiedade, medo e esperança, típico daquele pássaro que vai aprender a voar. Não sabem o que querem, mas acreditam no que buscam


São diversas as universidades que, a cada semestre ou ano, abrem suas portas para esses ingressantes de primeira viagem. Porém, as interioranas são as que mais se destacam por suas famosas receptividades. Dentre elas, se encontra a UNESP (Universidade Estadual Paulista), terceira maior universidade pública do país, com campus distribuídos ao longo de 24 cidades do estado de São Paulo. O maior deles, que se localiza em Bauru, é também o que recebe o mais alto número de estudantes. Atualmente, a FAAC ( Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp), por exemplo, conta com 1625 graduandos, sendo 85,42 % deles de outras cidades e 0,24 %, intercambistas. Com a instalação da Universidade Estadual Paulista em Bauru, no ano de 1987, além da USP (1962) e de particulares como USC ( Universidade Sagrado Coração ­ 1953) e ITE (Instituição Toledo de Ensino – 1951), a economia da cidade passou a movimentar­-se de maneira mais rápida e, atualmente, de acordo com uma matéria publicada pelo Jornal da Cidade (JC), os estudantes injetam cerca de 134 75,42 % 24,34 % 0,24% Distribuição dos alunos na UNESP Vindos de outras cidades Bauru Intercambistas milhões de reais anuais nela.

Após 120 dias de greve, os calouros unespianos puderam finalmente iniciar as aulas e, junto delas, o seu novo processo de adaptação envolvendo esferas, emocionais, sociais, culturais e até mesmo climáticas. Muitos sofreram e ainda sofrem com a distância dos pais, familiares e amigos, além da solidão. “O pior momento foi definitivamente no domingo, antes das aulas começarem. Meus pais foram embora e eu não pensei que fosse sentir tanto. Foi bem triste.”, disse Pedro Maziero (19) ao ser questionado sobre os piores momentos de sua nova vida na cidade. Pedro veio de Tupã e está cursando o primeiro ano de jornalismo na UNESP.


As dificuldades, contudo, não se encontram somente na solidão e na distância dos pais. Viver sozinho também requer um amadurecimento muito grande, o que conduz a um crescimento pessoal vertical. A vida a quilômetros de casa exige responsabilidade e, acima de tudo, consciência. Giovani Ramos Flores (21), que já está no campus da UNESP há três anos, cursando design, conta que mudou
bastante no decorrer desse período. Passou por bons e maus momentos. O mais impactante foi o assalto à república onde morava, no mês de março desse ano. De acordo com ele, momentos como esse permitiram que tivesse “muita responsabilidade. Antes, eu não me preocupava com nada, nem com as louças. Agora, eu tenho que pagar conta, muita conta. Já fui assaltado, fechei uma república e
tive dívidas.“

Somada a essas experiências e adaptação, vem a questão da cultura. A universidade, seja ela qual for, corresponde a um ambiente heterogêneo de integração, que engloba jovens dos mais variados estados, regiões e, até mesmo, países. Não é raro, hoje, ao andar pelas ruas do campus da UNESP, ouvir vozes dialogando em outras línguas. Essas vozes representam um grupo que arriscou um voo longe: os intercambistas. Estes, além de passarem por todas as dificuldades anteriormente citadas, são obrigados a se adaptarem a uma cultura eclética e diametralmente oposta como a brasileira, além do clima e da alimentação. “(...) O clima é muito frio, e eu não me enquadrei. A alimentação é muito diferente. Não sei, aqui as coisas já são prontas. Quando provo, acho meio estranho.”, confessou Miguel Mbona (20), estudante do primeiro ano de arquitetura, que deixou a Angola há cerca de um mês para arriscar­-se em terras brasileiras. Não importa o tempo fora, deixar o querido lar para estudar sempre será uma experiência paradoxal. Solidão, saudade e tristeza estarão sempre atreladas ao aprendizado, novos amigos e felicidade. Apesar de todas as dificuldades enfrentadas, Pedro, Giovani e Miguel confirmaram com a mesma empolgação que sair do ninho valeu a pena

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