domingo, 9 de agosto de 2015

Cinco meses após morte de aluno, universidade ainda discute como enfrentar a cultura do álcool

Por: Raíssa Pansieri



No dia 6 de julho foi divulgado o resultado da Comissão Processante Especial (CPE), aberta pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), referente à morte do estudante de Engenharia  Elétrica  da Faculdade  de  Engenharia  de  Bauru  (FEB),  Humberto  Moura Fonseca,  de  23  anos. Tivemos acesso  junto  ao  diretor  Prof.  Dr.  Nilson  Ghiardello, representante da FAAC (Faculdade de Artes, Arquitetura e Comunicação), do relatório da Comissão de Apuração Preliminar (CAP), em que destaca-­se o seguinte trecho: “No âmbito  interno  da  apuração  do  caso,  foi  verificado  que  o evento  ocorreu  fora  das dependências  da Unesp. E,  de fato,  devido  à  gravidade  das conseqüências  envolvidas com o abuso do álcool, acatou­se a decisão da comissão, na qual sugere em seu relatório final que os senhores alunos identificados no processo fossem advertidos verbalmente, conforme previsto no regimento geral da universidade”.

A fatalidade envolvendo o estudante ocorreu no dia 28 de fevereiro de 2015, em uma festa denominada  InterReps,  organizada  por  estudantes da  Unesp  de  Bauru  e  com  a venda  de ingressos  dentro  do Campus Universitário.  O  jovem morreu  após  consumir cerca de 30 doses de vodca em uma disputa que premiava o competidor que suportasse ingerir o maior número de doses. No mesmo evento outros três alunos foram internados em coma alcoólico.

Amplamente divulgado pelos noticiários, esse episódio pôs em discussão não somente o teor de culpa dos envolvidos e da universidade, e sim um debate importante acerca da cultura do álcool entre jovens, que é tão facilmente verificada no meio universitário. Na  apuração sobre o  acontecimento,  desde os últimos  cinco meses, foram ouvidos os presentes  no InterReps,  alunos  da  universidade  e  palestrantes  do Grupo  de Discussão (GD)  sobre  a  cultura  do  álcool,  entre  eles,  membros  do  Centro  Acadêmico  de Comunicação  Florestan  Fernandes (CACOFF),  psicólogos  da  Faculdade  de  Ciências (FC)  e, os diretores da Faculdade de Arquitetura, Artes  e Comunicação (FAAC)  e da Faculdade de Engenharia de Bauru (FEB).

Pesquisa de Opinião e Discussão sobre o Assunto

Em enquete realizada entre os dias 17 e 20 de julho, com estudantes das três faculdades da Unesp ­ Câmpus de Bauru, foi constatada uma porcentagem significativa de alunos que  nunca  ouviram  falar e/ou  participaram  de  palestras  de  conscientização  sobre  a cultura do álcool entre universitários, como revela o  infográfico no final dessa matéria. A  situação  é  ainda  mais  preocupante,  já  que  os dados  mostram  que  dos  90  alunos entrevistados, 69 afirmaram consumir bebida alcoólica, e desses, a grande maioria disse ter aumentado o consumo durante o período de faculdade.

A fim de desenvolver uma cultura de proteção ao indivíduo, ao invés da repressão do consumo  do  álcool,  o GD  do  evento CACOFFONIA,  propiciou  um  debate  na  última sexta feira, 17 de julho. A iniciativa, que partiu dos próprios estudantes, obteve como pontos  fortes  o  questionamento  das  atitudes  punitivas  por  parte  da  universidade,  ao invés de atrelá­las  a medidas educativas e, se os jovens conhecem e estão cientes dos limites do seu próprio corpo. Foi proposto também, por parte dos veteranos presentes, a responsabilidade dos próprios alunos na desconstrução de algumas tradições que, ainda que  inconscientemente,  utilizem­se  de  sua  hierarquia,  para  pressionar calouros  a beberem ou a participarem de competições.

No encerramento do debate, os estudantes foram questionados em como a universidade poderia auxiliar na resolução desse problema, uma vez que há uma certa dificuldade por parte  dos universitários  em  aceitar  recados  institucionais,  vistos  como  opressores  ou moralistas. Em resposta, estudantes propuseram maneiras da universidade discutir essa cultura do álcool, com a permanência do grupo como fórum permanente e, ressaltaram como a instituição pode tornar­-se cada vez mais um ambiente construído por todas as partes (professores, diretores  e funcionários) se souber atender  aos  anseios  estudantis. Notou­se  porém  que,  embora  aberto  aos  alunos,  o  espaço  de discussão  contou  com  a participação  de  apenas  25  estudantes,  em  uma  Universidade  que conta com  mais  de 7000 alunos.

Opinião de especialista

“Eu acredito que o universitário tenha essa consciência quanto ao exagero no consumo de  bebida alcoólica  e, saiba  os malefícios  que  ela  lhe  causa. Mas,  acaba  deixando­se envolver  pelo momento  ou  até  por  pressão  social”,  declarou  Karina  Ferraz  Tozze, psicóloga e professora da Faculdade de Ciências, ao ser questionada sobre a cultura do álcool. A  especialista  afirmou  ainda que  “Não podemos ignorar os  efeitos biológicos, tanto na hora do próprio consumo, quanto a longo prazo”. Entre  os  efeitos  do consumo  abusivo  de  álcool,  algumas  conseqüências  imediatas podem ser  destacadas,  como  o  aumento  do  número  de  acidentes  automobilísticos,  a propensão ao  uso  de  novas  drogas  e  até  mesmo  uma  maior  incidência  de  relações sexuais  sem  o  uso  de preservativos,  oferecendo  sérios  riscos  de  contaminação  e gravidez não planejada.

O  álcool  está  relacionado  a  uma  cultura  de  celebração  e  de  festas,  portanto,  a especialista ressalta  que  “Não  adianta  haver  a  coibição,  se,  atrelado  a  ela,  não  vier programas  de conscientização.  É  importante  a  universidade  ensinar  aos  seus  alunos como  conhecer  e  refletir sobre  o  seu  consumo,  de  uma  forma  em  que  o  corpo,  o emprego,  a  faculdade  e  a  relação com  a  família  não  sejam  prejudicados”.  Essas medidas, portanto, se fazem necessárias a fim de que, a longo prazo, a vida do aluno não  seja cerceada e prejudicada pelo fator do alcoolismo.

Diretor da FAAC, Prof. Dr. Nilson Ghiardello, mostra sua posição

Na manhã da última segunda feira, dia 20 de julho, o diretor da FAAC posicionou-se quanto a punição aplicada aos estudantes envolvidos na organização do InterReps. “Nós aqui da FAAC tivemos uma estudante envolvida no incidente, os demais eram da FEB, o  que  não  diminui  nossa responsabilidade,  se  é  que  há  alguma  responsabilidade”, declarou  Ghiardello,  antes  de  iniciar  a menção  aos  tópicos  do  relatório  da Comissão de Apuração Preliminar. No relatório em questão, faz-­se menção a proibição de  consumo  e  divulgação  de  eventos  associados  à  bebidas  alcoólicas dentro  da universidade,  ressaltado  pelo  diretor  que  “A  UNESP  implementa  forte  política  para
proibir o consumo de bebidas alcoólicas. Agora, como administrador da faculdade, nós não temos qualquer ascensão sobre vocês, que são maiores de idade, quando saem daqui e  vão  para  uma  festa. O  que  a  gente  pode  fazer  dentro  do  campus,  é  coibir  trotes violentos  ou  humilhantes  e, fazemos  algum  controle  de  cartazes  de  festas  dentro  do campus,  permitindo  a  exposição  e venda  de  ingressos  apenas  quando  não  houver referência a bebidas alcoólicas”.

O diretor Nilson  apontou  ainda  a importância  dos Centros Acadêmicos  como  agentes fundamentais  na  discussão  e  mobilização  para  tratarem  de  assuntos  que,  se  não  de iniciativa estudantil, não teriam o mesmo potencial de visibilidade. “O CACOFFONIA, de sexta feira [17 de julho] era parte disso. De discutir a cultura do álcool, é o que está ao nosso alcance. O que podemos fazer é propiciar esse espaço para discussão. Se vocês [estudantes] não  começarem  a discutir  a questão, quem vai  começar? A Universidade pode  proporcionar  as  condições,  dar  meios,  se precisar  de  sala  de  aula  ou  trazer palestrantes de fora. Mas, se a discussão não partir de alguém pelos quais vocês sintam-se  representados,  e  vocês  não  nos  ajudarem,  torna-­se  um  evento  desinteressante  aos alunos”.

Visão do Prof. Dr. Edson Antônio Capello Souza, diretor da FEB. 

O diretor da FEB, Edson Antônio Capello Souza, concedeu entrevista na manhã desta terça­ feira, 21 de julho, acatando, assim como o diretor Nilson Ghiardello, o relatório da CAP,  alegando  que  “No âmbito  da  universidade,  não  temos  como  responsabilizar ninguém aqui dentro da faculdade, porque temos normas, em que é proibido o consumo de bebidas alcoólicas. Tanto que acatamos o que a comissão decidiu e, entendemos que não temos  qualquer responsabilidade. O  que temos  é realmente  uma responsabilidade acadêmica de mudar essa cultura, isso a gente tem feito e devemos incentivar através de campanhas”.  Como  exemplo,  o  diretor  mencionou  que  houve  no  dia  6  de julho,  um Workshop sobre o uso abusivo de álcool, que contou com a participação da FEB, FAAC
e  FC.  Porém,  complementou  que  “Nas  campanhas,  nós  não  obrigamos  os  alunos  a participarem,  mas,  eu  percebo  que  os  alunos  não se  atentaram  ainda  à  gravidade  do consumo do álcool”. O diretor ressaltou ainda a aplicação de punição a quem infringir as regras “A fiscalização quanto a venda é realizada pelos servidores da vigilância e as regras são  bem  claras,  é  proibido.  Se  houver  o  desacato  a  qualquer  norma  interna,  é prevista submissão a advertência verbal, escrita, suspensão ou expulsão”.

Segundo  o  diretor,  imediatamente  na  semana  seguinte  ao  falecimento  do  estudante Humberto Moura Fonseca, foi feita uma reunião com os alunos do curso de Engenharia Elétrica da FEB, aberta aos demais alunos interessados, onde representantes do Centro de  Psicologia  Aplicada (CPA) participaram  e  dispuseram-se  a  agendar  com  todos  os alunos envolvidos um apoio psicológico, caso necessário.

Quanto ao melhor caminho para os estudantes comunicarem-­se com a diretoria da FEB, foi apontado o Diretório Acadêmico da Faculdade de Engenharia (DAFAE), que possui respaldo em suas atividades, principalmente se acopladas a eventos que incluam lazer sem o enfoque no álcool, como é o caso dos esportes.

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